Flores Coletivas

Um olhar fenomenológico: Flores coletivas

"ver fenomenologicamente significa compreender as coisas-que-se-doam-à-experiência." (Kretzer, 2011, p.41)

Ao longo dos questionamentos gerados a partir de diálogos com os estudantes do sexto ano, a "Flor da Vida" refloresceu com algumas transformações. O miolo da flor se transformou no foco da pesquisa: Experiência Coletiva. A pétala Outridade deu lugar a palavra Diálogo. A Linguisticidade refloresceu no Processo Criativo. A flor ganhou mais uma pétala: Exercício de Liberdade - Autonomia.

A terra na "Flor da Vida", representa a ligação da criança com o mundo (mundanidade), já na flor que guia a pesquisa são as bases teóricas que representam as raízes do projeto. O caule cria a imagem de um caminho, a própria trajetória da pesquisa, os jogos propositores é um destes caminhos possíveis que encontrei em busca da experiência coletiva no espaço escolar.

No início do projeto, perguntei aos estudantes o que seria importante para que um trabalho coletivo conseguisse ser realizado dentro do espaço escolar. A partir das respostas uma outra flor foi montada. A flor dos estudantes do sexto ano, como vemos na imagem a seguir, com as palavras: Democracia, Atenção, Educação, Cooperação, Organização, Comunicação, Respeito e União. 

O espaço escolar é um ambiente que também enfrenta situações de queimadas, é um local de resistência que teima renascer flores como Silva Manso que movimenta o coletivo em direção ao desenvolvimento do espaço para novas significações das relações existentes. A delicada flor amarela, Silva Manso, conectou-se a minha pesquisa se tornando símbolo de resistência e principalmente de coletividade.  

No percurso da pesquisa para entender a artista Lygia Clark como educadora encontrei leituras fenomenologias de seus trabalhos que me levaram a investigar a ligação desta linha filosófica com a educação. Encontrei esta relação de forma poética no livro Merleau-Ponty e a Educação de Marina Marcondes Machado, que guiou meu olhar nas reflexões a partir dos diálogos com os estudantes, como vimos no capítulo anterior.

Na introdução do livro a autora explica que ao escrever para esta coleção revisitou sua tese de doutorado, intitulada: A Flor da vida: Sementeira para a fenomenologia da pequena infância, defendida em 2007. Mesmo sendo focada na educação infantil, vi o potencial da metodologia "Flor da vida", para desenvolver um olhar coletivo e fenomenológico do espaço escolar. Como podemos ver no Esquema da Flor da vida desenvolvida a partir dos escritos de Marina Machado - Arquivo pessoal

Mas se a flor da Marina Marcondes Machado é a "Flor da Vida", qual é a flor desta pesquisa? Será que poderia ser o Girassol que representa esperança? Ou o dente de leão que simboliza a liberdade? No campo vasto de flores, uma me chamou atenção, a Adenocalymma nodosum mais conhecida como Silva Manso (fig.10), pois é uma flor que renasce do fogo nos períodos de queimada do cerrado e segundo pesquisas realizadas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Instituto de Biologia, a flor Silva Manso renasce do fogo simétrica e isso atrai grupos de animais que vivem no coletivo, como abelhas e formigas, estimulando assim o desenvolvimento de todo o local, por isso é considerada uma flor pioneira.

Na biologia, ela é chamada de espécie pioneira de sucessão secundária. Vanessa Stefani explica que uma espécie pioneira é a primeira planta que surge após um momento de estresse [...] A Adenocalymma nodosum é classificada como "sucessão secundária" por ter existido no ambiente antes de ele ter sido danificado. [1]

Segundo a pesquisadora Vanessa Stefani da UFU, a simetria indica que a flor está saudável e bem adaptada ao ambiente, por isso a flor não renasce simétrica em lugares que houve desmatamento ou queimadas com incidências anuais, geradas pelas ações dos seres humanos. O cerrado mesmo sendo resistente ao fogo, precisa de um maior intervalo de tempo entre as queimadas para se restabelecer. Pelo fato de os grupos de animais polinizadores vão em busca de flores simétricas, estes ambientes que sofrem com as ações externas, nascendo assim flores assimétricas, tem maiores dificuldades de se desenvolver. Da mesma forma que o cerrado precisa de tempo para se restabelecer, a pesquisa também necessita de tempo para florescer e reflorescer ao longo do processo.

A flor Silva Manso ensina que para trabalhar coletivamente precisa-se ter uma relação simétrica, ou seja, democrática, onde os estudantes têm voz, "não é a simples presença do aluno [...], mas sim sua presença reflexiva e ativa." (OLIVEIRA, 2006, p.83).

Essas relações assimétricas em educação, caracterizadas pela oposição mundo-submissão, levam a um prejuízo importante no desenvolvimento dos sujeitos, uma vez que o indivíduo coagido tem uma participação nula na elaboração das ideais e como consequências, o seu papel na conservação e na divulgação dessas ideias também é bastante limitado: repete o que lhe foi imposto e desta forma divulga as ideias pelo fazer acrítico, ensinando seus pares da mesma forma como aprendeu: pela submissão.( OLIVEIRA, 2006, p.89 e 90)

E para que ocorra esta relação simétrica o primeiro passo é o diálogo entre aqueles que fazem parte do espaço escolar. A flor pioneira Silva Manso é classificada como "sucessão secundária", como vimos na citação a cima, pois ela já pertencia aquele ambiente antes do fogo, não é pioneira de inovação, mas de persistir e renascer depois da queimada.

[1] Pesquisa realizada próximo a cidade de Uberlândia no Laboratório de Ecologia Comportamental e Interações (LECI), pelas pesquisadoras: Vanessa Stefani, (Inbio/UFU) e Denise Lange da Universidade Tecnológica do Paraná (UTFPR). A pesquisa também teve a colaboração de Andréia Vilela, Clébia Ferreira e do professor Kleber Del-Claro, do Inbio/UFU. Pesquisa publicada na revista Social Biology. Informações retiradas na reportagem do site da UFU: <https://www.comunica.ufu.br/noticia/2017/11/estudo-descobre-planta-do-cerrado-que-resiste-ao-fogo> último acesso 06 de set 2019.

Referências

KRETZER,Rodriguez. Processos de criação em sala de aula: experiências fenomenológicas como formas de "reaprender a ver o mundo" - São Paulo, 2011.Orientador: Profª. Drª. Geralda Dalglish (Lalada) Dissertação (Mestrado em Artes) - Universidade Estadual.Paulista, Instituto de Artes, 2011.

MACHADO, Marina Marcondes. Merleau-Ponty & e a Educação - Belo Horizonte: Autentica editora, 2010- Coleção Pensadores & Educação,19 KRETZER, Cláudia Maria

OLIVEIRA, Lilian Haffner da Rocha. Trabalho Coletivo em educação: os desafios para a construção de uma experiência educacional fundamentada na cooperação em uma escola municipal de São Paulo. 2006.FEUSP-São Paulo. Dissertação de Mestrado. Orientador: Vitor Henrique Paro. 

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